“Temos grandes possibilidades de exportar”

Porto de Suape embarcou um milhão de cargas, principalmente contêineres, para portos internacionais em 2015 (EDUARDA AZOUBEL/DIVULGAÇÃO)

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Fonte: Diário de Pernambuco

O cenário agora é outro. Desde o ano passado, a indústria passa por um processo de desaceleração. Muitas fecharam as portas, outras demitiram. Boa parte está endividada. Os reflexos estão nos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. No terceiro trimestre do ano passado, último dado divulgado, houve queda de 8,1%.
Em entrevista ao Diario, o 1º vice-presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), Ricardo Essinger, afirma que o cenário deve se manter complicado este ano e é preciso buscar novos negócios. Com câmbio favorável, a exportação é considerada uma oportunidade. “Quem quiser crescer tem que voltar a atenção para o mercado internacional.” O executivo comenta ainda que mesmo diante das adversidades é possível reverter o cenário. “Eu sou otimista e acredito”, afirma.

Quais os pilares da política econômica industrial de Pernambuco?
Dividimos em dois pilares: pública e privada. Andamos em todas as regiões do estado vendo tudo que podia ser feito. Na parte privada nós estamos fazendo. Infelizmente ainda não está como desejamos. Do lado da indústria o que esperamos é capacitação da mão de obra, preparação dos empresários e interiorização da federação. Do setor público, o que se espera é uma legislação que facilite o bom ambiente. Nossa ideia é transformar Pernambuco no estado com melhores condições de negócios para que realmente seja um ícone a vinda de empresa para cá. O empresário passe a ser olhado como precursor do desenvolvimento.

Energia é um dos principais custos da indústria e o fornecimento muito criticado. O que pode ser feito?
O fornecimento de energia não pode ser limitado a uma concessionária. Se a gente conseguir fazer com que indústrias médias possam entrar no mercado livre, compra-se energia onde encontrar melhor preço. O problema é que não temos fontes geradoras. Só temos energia cara pra crescer. Improvisamos aqui uma geração de base. A única saída, pelos estudos que fizemos, seriam as usinas nucleares. Mas aí existe uma discussão apaixonada. Se você olhar as usinas nucleares no mundo e os problemas que ocorreram, verá que não há razão. Existem usinas antigas que funcionam magnificamente. Hoje só as grandes indústrias, que consomem acima de R$ 60 mil ao mês, conseguem entrar no mercado livre.

A crise atingiu todos os setores. Na indústria, o impacto maior são nas grandes ou nas pequenas?
O pequeno consegue se defender e não é tão visível quando tem um problema. Mas a quantidade de pequenas empresas que estão reclamando e demitiram é enorme. Uma grande tem mil e demite 200. Na pequena, tem três e demite dois. Então são muito impactadas também. E nesse caso o problema é do crédito. Com esse aumento de energia e reajuste do salário acima da inflação, o capital de giro foi embora.

Quais seriam as medidas a serem adotadas de imediato para que haja uma reação da indústria local?
Primeiro um enxugamento da máquina para focar na área produtiva e investimento em infraestrutura, que é um ponto básico. Segundo, diminuir a avidez do governo em relação à carga tributária, ou seja, facilitar o ambiente de negócio.

Qual seria o maior entrave da indústria no estado?
O grande entrave que temos é a pesada carga tributária, uma insensibilidade do governo em relação aos meios produtivos. E aí inclui os governos federal, estadual e muitos municípios onde os prefeitos não estão preocupados com o meio produtivo. Agora, é difícil quantificar qual o maior entrave porque depende do tipo de indústria. Para a Jeep, por exemplo, os maiores entraves são melhorar energia e estrada. Sem contar a dificuldade de mercado. Já para outras, é a parte de ferrovia. O gesso tem um entrave enorme de custo no transporte. Se a ferrovia estivesse funcionando teria uma outra posição para exportar seu produto.

O governo federal, através do Ministério Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), está estimulando indústrias a aproveitarem o câmbio favorável para iniciarem a exportação. Esta é a saída para crise?
O governo está com o ministério fazendo uma força enorme para exportar, mas o quê? Produto da indústria, principalmente. Pernambuco não tem nem o agronegócio, grãos, nem mineração em grande volumes. O que tem para exportar são produtos manufaturados, quer seja de origem animal, vegetal ou mineral. Não são commodities. Então, todo produto nosso depende da indústria e estamos com gargalo da energia, de infraestrutura na produção como um todo. Na hora que você tem um mercado interno que está com dificuldades financeiras, em declínio, que o PIB está caindo, se quer aumentar as vendas tem que ir para o mercado internacional. Não adianta procurar novo mercado aqui dentro se já está diminuindo a demanda. Você tem aí o PIB do Brasil espalhado pelo mundo e vai entrar com seu produto. Se produzisse uma commodity eu diria que teria dificuldade. Mas uma pequena empresa ou a média não, porque o que vai pegar de fatia de mercado é tão pequeno que não vai ser nem notado. Mas o retorno de negócio aqui é muito grande, porque você continua com o mercado nacional e esse aí vai ser o plus. Há três anos quando fizemos a política industrial, um dos pilares era justamente a entrada no mercado internacional das nossas empresas.

Ou seja, antes de se incentivar a exportação teria que se destravar esses gargalos?
Sim. Por exemplo: uma indústria de material de limpeza, de cosmético, que quiser exportar, mesmo tendo a licença da Anvisa para vender no Brasil, precisará de outra para atuar no mercado internacional. Vai demorar dois anos, então se quiser exportar hoje não tem como. Tem de haver um entrosamento da máquina pública para destravar esse retorno ao desenvolvimento e não está havendo.

Então, em princípio, o programa não terá avanços?
O programa é válido em alguns setores. A indústria de confecções, por exemplo, em curto prazo, com a qualificação das empresas, conseguirá se colocar porque já tem vagas no mercado internacional. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado criou um grupo de trabalho para preparação do concentrador de carga para exportar. Isso é bom porque a grande maioria das empresas de Pernambuco são micro e pequenas e não têm como exportar sozinha. Na hora que tem um concentrador, ela vai ter como exportar. Já uma indústria eletrônica daqui não tem como exportar, porque o volume que tem em tonelada é pequeno. Então, não tem como negociar um contêiner com o armador. Qual o poder de negociação que ela tem? Vai pagar a tabela cheia, que é cara. O setor sucroalcooleiro sabe negociar porque freta um navio que vai levar a carga. Mas a confecção? Como vai fazer? Qual o poder que tem em tonelagem? Nenhum. Então, essa iniciativa da secretaria é excelente para médio, a micro e a pequena empresa.

Ainda falando de exportação, quais os setores que possuem potencial em Pernambuco e que ainda não são explorados?
Temos bastante possibilidades de exportar uma quantidade enorme de produtos por exemplo de couro, calçado. Já fomos grande produtores de calçados, e de qualidade. Lembro-me de um conhecido de Nazaré da Mata que chegou em Paris, comprou um sapato finíssimo e quando voltou descobriu que tinha sido feito em Timbaúba. Era um produto exclusivo de exportação. Tem muito produto feito especificamente para exportação. É isso que nosso empresário tem que tomar conhecimento, porque com esse dólar em alta tem todas as condições para exportar. Principalmente em couro, calçados, confecções, mel, gesso, produto acabado do gesso e mais um sem número de produtos que fabricamos. Todos têm mercado internacional, precisam de uma capacitação, de uma facilitação para chegar ao mercado.

Quanto do estado se exporta e em quanto se pode chegar?
Já fomos 2% da exportação do Brasil e hoje não somos nem 0,4%. Está caindo porque o mercado interno estava aquecido e o empresário voltou suas atenções para dentro. Poucas empresas se preocuparam em ir para o exterior. O dólar também estava muito baixo. Esperamos passar dos 2%. Temos de fazer um trabalho contínuo para o crescimento da indústria pernambucana. Quem quiser crescer vai ter que se preocupar com o mercado internacional. O setor de confecção estava preocupada com os asiáticos mas se tiver qualidade e produtividade em nível internacional eles não terão como entrar aqui não.

Mas aí se fala da questão da carga tributária brasileira, que é muito difícil de se competir com esses mercados por conta da questão de preço…
A fome do governo em relação a tributo é muito grande. Agora estão esquecendo que quanto menor a atividade econômica, não adianta aumentar a carga tributária, porque vai diminuir a arrecadação. É preciso aumentar a atividade econômica.

Vimos nos últimos anos a chegada de grandes indústrias e formação de polos. Agora vivemos um outro momento que é o fechamento de indústrias. Como chegamos a esse ponto?
Tudo está sendo reflexo de uma crise nacional. O polo metalmecânico é o maior exemplo. Vieram os estaleiros. Foi um erro de ótica abrir em um país tantos estaleiros ao mesmo tempo e quase todos estribados em cima de uma encomenda de uma só empresa: a Petrobras. Deveriam ser menos estaleiros com melhores condições para que tecnologicamente pudessem competir no mercado internacional. Temos um estaleiro excelente que é o Atlântico Sul, em uma posição geográfica privilegiada, que pega todas as rotas do Atlântico, no entanto, não chegou a um amadurecimento que pudesse levá-lo ao mercado internacional. A parada repentina da Refinaria Abreu e Lima e do estaleiro quase matou o setor metalmecânico, que estava em ascendência.

Diante desse cenário, o que esperar de 2016?
Estamos muito preocupados com 2016 porque já estamos no segundo mês e vemos ainda a economia industrial indo com dificuldades de resolver problemas, gargalos, com falta de uma política por parte dos governos federal e estadual. Infelizmente nossa economia ainda é muito definida pelo governo. Quem podia imaginar que governo fosse aumentar tributo de fumo, sorvete e chocolate como fez recentemente?

 

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